Chittagong, Bangladesh também é o destino final de muitos
navios, quanto falamos em desmanche de navios, logo vem a nossa
mente as praias de Alang, (acesse
o link)Índia. Mas Chittagong, apesar de nem tão
popular, é com certeza tão ou mais infame quanto Alang.
Atualmente mais de 3 milhões de pessoas em Bangladesh,
dependem diretamente da indústria da sucata e metal, o país anda
faminto por sucata para ser convertida em aço.


E navios de todo tipo e lugar quando são
descartados, navegam rumo as praias lamacentas de Chittagong, assim
que chegam lá, estas embarcações são varadas na praia durante à
maré alta, este lugar oferece grandes amplitudes entre marés, por
isso é adequado para este tipo de manobra, e após a maré esvaziar,
os navios ficam completamente no seco, assim multidões de homens,
mulheres e crianças, invadem as carcaças como se fossem zumbis
desesperados, e a operação demolição se inicia.

“Eu estou com febre já por três dias,
não estou em condições aptas para trabalhar, e além disso tenho que
pagar 350 taka (5 dólares), por semana por alimentação e remédios
para mim, mas tenho que continuar trabalhando assim
mesmo”…
A visão do inferno
Chegando em Chittangong de avião já se vê os navios na
lama, sendo desmantelados, o cenário parece um campo de batalha,
pois é um completo pandemônio, não há qualquer preocupação com
organização, ou melhor organização é o de menos, pois o mais
importante aqui é, destruir, cortar, desmantelar, queimar,
triturar, desmoronar, demolir e etc…



Sabe se, que para demolir um navio em um país de
primeiro mundo (EUA, ou Escandinávia por exemplo), custa igual ou
até mais do que construir um novo navio. Logo a alternativa
encontrada: Lugares para receber estes navios e desmancha los com
baixíssimo custo e lucro altíssimo, entre os quais os em destaque
são, Chittagong, Alang, Aliaga, Kaohsiung, e outros cantos perdidos
do mundo, em que leis trabalhistas, normas de segurança e
ambientais, não tem qualquer valor.


Cena comum neste lugar, a presença de
crianças
E sem duvidas um dos lugares mais degradados é Chittagong,
os navios simplesmente chegam as praias, e já começam a ser
cortados, sem qualquer preocupação com à segurança, tanto dos
“trabalhadores”, quanto com o meio ambiente. Conforme
relatado mais acima, crianças e mulheres fazem parte deste exército
desesperado.
A maioria dos operários é gente que vem de longe, em busca
de trabalho e algum dinheiro, por isso não se preocupam tanto com
“detalhes”, como a saúde e conforto. É comum os pais
levarem os filhos juntos, e por isso há presença constante de
crianças neste insalubre local, e quanto as crianças, bem
estas não estão brincando e sim trabalhando, assim como os
adultos de 12 à 14 horas por dia, executando os mais variados
trabalhos, desde ajudantes, à coletores de fios e arames, ou
queimado cabos elétricos para retirar o cobre, ou catando as sobras
das sobras, o resto que ninguém mais se interessa, pois para os
sucateiros, o que interessa, é o aço, maquinário, equipamentos, e
tudo que for mais valioso e que possa ser reaproveitado. Por fim
tudo é reaproveitado, inclusive os resíduos oleosos que restam nos
tanques dos navios, é retirado em baldes, e depois passado para
toneis, e vendido nas estradas.
Ao redor desta região floresce um comércio com as sobras
dos desmanches, lá você pode encontrar todo tipo de coisa que há em
navios, desde mobiliário, até instrumentos de navegação, que irão
servir como souvenir para turistas, muitos materiais são
reaproveitados na construção civil em larga escala no país, como
anteparas, portas, vigias, e tudo o que puder ser
reaproveitado.

Os donos dos estaleiros
somente pagam tratamento médico, quando alguém é seriamente
ferido durante o trabalho, por isso as palavras de Noor
Hossain, que veio de Dinaipur, refletem uma cruel realidade
– “Eu estou com febre já por três dias, não
estou em condições aptas para trabalhar, e além disso tenho que
pagar 350 taka (5 dólares), por semana por alimentação e remédios
para min, mas tenho que continuar trabalhando assim mesmo, como vou
economizar algum dinheiro para enviar para minha família se eu
estou aqui doente?”.
Além de não oferecem qualquer EPI (Equipamento de Proteção
Individual), trabalhadores não possuem máscaras contra vapores
tóxicos, e poeiras químicas, que são muito presentes em navios,
além disso não possuem botas, luvas, e nem capacetes. Os
maçariqueiros trabalham sem máscara, no muito usam um óculos velho,
mesmo assim quando o possuem.
Histórico do inferno
A industria da demolição de
navios começou em Sitakund (Chittagong), em 1960, em pouco tempo
Chittagong se torna um dos maiores locais de demolição de navios,
isto graças à fraca legislação ambiental local, e custo com mão de
obra baixíssimo. Graças as substancias nocivas presentes nos navios
que são demolidos, logo este lugar se tornou devastado, milhares de
arvores e vegetação nativa foram desaparecendo ao redor desta área,
vapores e fumaça venenosa, provenientes da queima de materiais dos
navios criaram um cinturão de degradação, as praias estão cobertas
por óleos e por restos de metais pesados, como chumbo, e outros
mais, por todo lado há amianto, o ar esta poluído, e este é o local
de trabalho e moradia de milhares de pessoas.

Salários
Os salários variam de acordo com as horas trabalhadas, e
com o tipo de atividade executada e habilidade do profissional,
porem não há lugar para horas extras, férias, licença médica, ou
tempo para adoecer, ou qualquer outro direito trabalhista. Um
trabalhador em média trabalha de 12 à 14 horas por dia e seu
salário pode vaiar entre 100-250 taka dia (1,5 à 3,5
dólares).


Foto: Edward Burtynsky- bangladesh
ship deconstruction
As condições de trabalho são muito deploráveis, se você
acha seu local de trabalho insalubre, você ainda não viu oque é
trabalhar em um desmanche em Chittagong, as normas de saúde e
segurança e meio ambiente, são baixas, EPI é privilégio de poucos,
e ainda quando há é geralmente inadequado. Grandes acidentes
são rotineiros, alguns deles vitimando muitas vidas a cada
ano.
Nos últimos 20 anos, mais de 500 trabalhadores perderam
suas vidas em acidentes no local, e mais de 600 ficaram gravemente
feridos e com sequelas irreversíveis, segundo estatísticas
locais.

Tecnologia de ponta
A sucata do desmanche de
navios abastece hoje mais de 80% de toda a necessidade de
processamento das usinas siderúrgicas do país, além disso em torno
de 3 milhões de pessoas estão envolvidas diretamente nesta
indústria, destes em torno de 40% da força de trabalho são
crianças.
Apesar destas péssimas condições de trabalho, as pessoas
que trabalham diretamente com o desmanche de navios, são
provenientes da região mais pobre do país o distrito Norte, e fazem
desta indústria seu meio de vida.
Um fato peculiar marcante neste trabalho são os meios
usados para “cortar” os navios, é basicamente usado
para quase tudo a força braçal mesmo, a mecanização é minima,
nestes lugares é mais barato contratar mil operários à comprar um
guindaste, não é feito qualquer “clean up” dos navios,
devido à isso o contato com substancias toxicas de todo o tipo é
inevitável, e obviamente acontece contaminação de solo e água, pois
isto é o menos importante neste momento, se vê nas fotos o caos
generalizado a desordem, múltiplas operações ocorrendo
simultaneamente, sem qualquer planejamento, isto é um flerte com o
perigo.
Segundo Charles Kernaghan, presidente de uma organização
internacional de trabalhadores, ele classifica os proprietários
destes estaleiros, como criminosos, pois segundo, ele privar os
trabalhadores de EPI, e condições mínimas de higiene e segurança é
um crime contra a humanidade, ele afirma que apesar de a OIT
(Organização Internacional do Trabalho), prover diretrizes e
convenções internacionais que protejam os trabalhadores contra
estas condições desumanas que são piores do que a escravidão, ela
tem sido ineficiente em controlar e punir estes
criminosos.
Sem dúvidas os desmanches
de navios de Chittagong, são um dos piores lugares para se
trabalhar no mundo, pois tudo ao redor esta contaminado e poluído,
os trabalhadores devido serem imigrantes de outras regiões, habitam
barracos improvisados, nos conveses dos navios que estão
demolindo, ou ao redor, sem as minímas condições de higiene e
conforto, preparam alimento e se alimentam em meio a sujeira,
fumaça tóxica, solos contaminados com toda à especie de metais
pesados, como chumbo, cadmio, mercúrio, e asbestos, banhos quando
ha, somente a bordo dos próprios navios, muitas vezes com água
restante de algum tanque de serviço retiradas com
baldes.
Num dia normal neste lugar, ocorre sempre um acidente
grave, alguém é, esmagado, ou cortado, ou despenca de algum lugar,
incêndios durante o corte são rotineiros, muitas das vezes ocorrem
grandes explosões em algum tanque de navio.
Normalmente os navios são cortados em grandes blocos, que
são desmembrados muitas das vezes, apenas pela força da
gravidade,
fazendo o navio
literalmente desmanchar, enquanto é cortado com maçaricos, porem ao
mesmo tempo dezenas de pessoas, estão em seu interior, destroçando
com as mãos o que pode, usando apenas marretas ou machados,
enquanto os grandes blocos inteiros, despencam muitos dos quais com
pessoas ainda dentro. E após estas seções estarem já jogadas na
lama, um exército, como se fossem um enxame de gafanhotos, se
encarrega de cortar as seções em chapas menores, que são por
sua vez carregadas manualmente por grupos de meninos, nos ombros
até um local específico, para serem transportadas já para usinas de
aço, muitas destas chapas pesam até mais de 500 quilos cada,
isso 365 dias por ano, de 12 à 14 horas por dia.
Um navio médio leva um pouco mais 1 mês e meio para ser
desmanchado quase que por completo, geralmente deixando a seção da
praça de máquinas para o final, pois requer maior trabalho, pois
muitas bombas e válvulas e redes, costumam ser reaproveitadas
para serem vendidas como spare parts, assim como componentes dos
motores e outras máquinas.

Nas fotos logo a baixo, vemos uma peculiar classe de
navios de carga geral, ou melhor um pedaço dele. Quem será, que
consegue identificar este navio?


Vou deixa los agora com as fotos do
lugar.















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